Em Divina Pastora, município do leste de Sergipe, artesãs produzem renda irlandesa com agulha, fios e um cordão chamado lacê. O modo de fazer foi reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural do Brasil: o conselho aprovou o registro em 27 de novembro de 2008, e a inscrição no Livro de Registro dos Saberes ocorreu em 28 de janeiro de 2009. O reconhecimento se refere ao conhecimento transmitido pelas rendeiras, não a uma peça isolada.
Como a renda irlandesa é feita?
A produção começa com um desenho que orienta o formato da renda, chamado debuxo ou risco. O lacê é um cordão de aspecto brilhante que acompanha os contornos; os espaços entre suas curvas são preenchidos com pontos feitos à mão com agulha e linha. É uma renda de agulha, e o lacê funciona como parte da estrutura visual da peça.
- A rendeira prepara ou copia o desenho em papel, que serve de guia para o trabalho.
- O lacê é alinhavado sobre os contornos do desenho e fixado ao suporte utilizado na confecção.
- Com agulha e linha, a artesã constrói os pontos que unem os contornos e preenchem os espaços.
O repertório de pontos e desenhos não é único. O Iphan registra nomes populares ligados ao cotidiano, como pé-de-galinha e espinha-de-peixe. Cada etapa requer domínio técnico, mas o resultado também depende das escolhas criativas das rendeiras.
Por que Divina Pastora se tornou referência?
O Iphan relaciona a consolidação desse ofício no município à história dos engenhos de açúcar, às mudanças sociais após a Abolição da Escravatura e às alternativas de trabalho construídas por mulheres. Um saber antes associado a grupos socialmente privilegiados foi apropriado e transformado por artesãs da região.
A transmissão ocorre por meio da prática compartilhada. Mestras rendeiras desenham, orientam a execução das peças e ensinam pontos a outras mulheres. A Associação para o Desenvolvimento da Renda Irlandesa de Divina Pastora (Asderen) apresentou o pedido de registro ao Iphan com anuência da comunidade detentora.
Pesquisa de Carlos Henrique Paes divulgada pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) em junho de 2026 comparou a técnica sergipana com modelos de renda desenvolvidos na Irlanda. O estudo destaca semelhanças, mas também as adaptações realizadas em Sergipe, especialmente o emprego do lacê. A origem europeia, portanto, não elimina a criação e a identidade locais.
O que significa ser patrimônio cultural imaterial?
O registro federal reconhece um saber-fazer que tem valor para a memória, a identidade e a vida social de uma comunidade. No caso da renda irlandesa, o bem cultural é o modo de produzir e transmitir a técnica, com seus conhecimentos, relações de trabalho e formas de aprendizagem. Não significa que o Iphan autentique individualmente cada peça vendida.
A decisão do conselho foi tomada em 27 de novembro de 2008, a inscrição no Livro dos Saberes ocorreu em 28 de janeiro de 2009 e o Iphan registra a revalidação do título em 11 de novembro de 2021. O dossiê publicado pela instituição em 2014 documenta materiais, pontos, organização do trabalho e redes de transmissão.
O registro cultural é diferente da indicação de procedência
Além do registro no Iphan, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu em 26 de dezembro de 2012 a Indicação de Procedência 'Divina Pastora' para a renda de agulha em lacê. Trata-se de um reconhecimento de origem geográfica do produto, diferente do registro de patrimônio imaterial, voltado ao saber tradicional. As duas identificações não devem ser confundidas.
Como o saber é preservado e quais são os desafios?
Salvaguardar a renda não se resume a guardar peças prontas: envolve transmissão do conhecimento, participação das rendeiras e condições para continuar produzindo. O Iphan documentou reuniões com associações em 2021 para discutir a suspensão do fornecimento de lacê por uma fábrica. Esse registro retrata uma dificuldade daquele período e não comprova falta atual da matéria-prima.
A documentação oficial também reúne ações de mobilização e pesquisa. Este guia não anuncia oficinas abertas, visitação a ateliês, endereços de venda ou preços, pois esses serviços exigem confirmação atual e individual junto aos responsáveis.





